PONTO INCOMUM




Olá! Meu nome é Clara e eu gostaria de narrar minha pequena história, pois desejo que o que aconteceu comigo não aconteça com mais ninguém.


Eu me considero ainda jovem, e de fato ainda sou jovem, pois estou agora com 43 anos de idade. Mas minha história, claro, tem início antes, quando eu era ainda mais jovem, por volta dos 20 anos.


Após a infância feliz e a adolescência cheia de desencontros, como é de praxe com quase todo mundo, entrei na vida de jovem adulta com meus conceitos e preconceitos, com meu modo particular de pensar e entender a vida. Até aí, acho que vivi bem, com minhas amizades, meu namoro duradouro, enfim. Às portas de concluir meu curso superior em Administração, logo me vi diante de um emprego em conceituada instituição da época. Acho que não seria ético de minha parte citar o nome da mesma, por ela ainda existir.


Lá estava eu toda contente, entusiasmada e sorridente nos meus primeiros dias de trabalho. Logo senti a seriedade exagerada de meus colegas, a rispidez e frieza que esmerava no ambiente. Até tentei ser o que eu era antes, espontânea, amiga e entusiasmada, mas infelizmente, como acontece com muita gente, acabei contaminada, externando um lado obscuro da minha personalidade.


Já não sorria – quando sorria era pura hipocrisia –, perdi a espontaneidade, a alegria e o entusiasmo. Quanto mais o tempo passava, mais eu ficava amarga, imitava os outros colegas, falando o estritamente necessário. Não olhava nos olhos das pessoas e quando menos, monologava palavras estando de costas, onde muitas vezes me vi falando sozinha, pois quem estava às minhas costas saia sem dar à mínima. Era este o ambiente.


Eu não podia deixar o emprego, pois na década de 80 as coisas estavam um pouco mais complicadas.


O tempo passou rápido, aos 25 anos me casei com quem amava de verdade, e que era meu namorado desde a adolescência. Aos 31 anos eu era mãe de dois lindos meninos. Bastou crescerem as crianças, para que o obscuro da minha personalidade, que até então eu havia conseguido deixar fora de meu lar, tomasse minha vida por completo.


Meu marido era compreensivo, mas os vários anos de meu azedume acabaram contaminando o pobre homem, sem dizer dos filhos que passaram a viver o mesmo clima, convertido em rebeldia e apatia. Para resumir a história, claro, mesmo jovem, acabei adoecendo e, aos exatos, 40 anos, após a minha vazia, azeda e ridícula vida, obtive um AVC que me deixou paralisada no lado esquerdo. Convivo com isso já há três anos.


Espero que vocês – tanto mulheres como homens – vejam em mim uma amiga, pedindo para que deixem esse tipo amargo de viver, retomando a personalidade que lhes é própria. Não percam a vida no azedume, da mesma forma como perdi a minha. Aprendam sem precisar de uma cadeira de rodas ou coisa semelhante.


Tenho de conviver hoje com grandes seqüelas, foi o modo que a vida encontrou para me ensinar, pois eu cheguei a tal ponto, que destratei até mesmo as pessoas que eram boas comigo e até estendiam suas calorosas mãos em meu auxílio.


Jovens, coloquem a revolta para bem longe. Ontem eu também tinha meus 20 anos, mas o tempo correu e vejam como estou. Nem pude escrever estas linhas, apenas narrei com muita dificuldade a um amigo.


Logo eu que tinha o dom da palavra em estado perfeito! Pensem muito antes de dizerem monstruosidades aos outros. Sorriam, pois hoje o meu sorriso, mesmo verdadeiro, não se expressa em minha face. Bom, vocês sabem o caminho. Só falta a coragem para seguir pelo melhor. Obrigada pela atenção!


CLARA



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